CARTAS A LUCÍLIO (Lúcio Aneu Séneca)


 

Lúcio Aneu Séneca

Lucílio Aneu Séneca nasceu em Córdova em data indeterminada, cerca do início da nossa era. Seu pai, de nome também Lucílio Aneu Séneca (conhecido por Séneca-o-Retor, para o distinguir do filho Séneca-o-Filósofo) trouxe-o ainda criança para Roma, onde estudou com mestres de várias tendências filosóficas, mas especialmente de obediência estóica.

Durante o principado de Gaio (Calígula) iniciou uma brilhante carreira como advogado, mas logo após a subida ao poder do imperador Cláudio foi por este exilado para a Córsega, onde se manteve durante 8 anos. Em 49, a nova esposa do Imperador, Agripina, conseguiu a anulação do exílio, chamou Séneca a Roma e confiou-lhe a educação do jovem Nero. Morto Cláudio e aclamado Nero como novo Imperador pela guarda pretoriana, começa a fase mais importante da carreira política de Séneca. A partir de 62, porém, as tendências autocráticas de Nero afirmam-se decididamente e Séneca retira-se à vida privada. 3 Anos depois, uma conjura para derrubar Nero é descoberta e o filósofo é dado como implicado nela, recebendo ordem do Imperador para se suicidar, o que acontece em Abril de 65. – A obra conservada de Séneca é considerável, nela se compreende uma virulenta sátira à morte de Cláudio, uma série de 10 tragédias (sendo algumas de autenticidade discutida), um volumoso tratado sobre os benefícios, um manifesto político sobre a clemência, um conjunto de vários opúsculos sobre problemas vários de filosofia moral prática (conhecidos sob a designação de Diálogos), as Questões naturais (tratado sobre vários problemas de ordem científica). A sua obra mais importante, escrita durante os últimos anos de vida, são no entanto, as Cartas a Lucílio, que mostram Séneca na plena posse dos seus recursos como pensador inserido na corrente estóica: “filósofo da condição humana” como lhe chamou o Padre Manuel Antunes, as Cartas conservam uma flagrante actualidade dada a intemporalidade dos problemas tratados e pertinência dos valores morais a que o autor faz constantemente apelo.

Cartas a Lucílio «Séneca» (Fundação Galouste Gulbenkian)

 

As Cartas a Lucílio – Epistulae morales ad Lucilium – São geralmente consideradas a obra mais importante de quantas subsistem da autoria de Lúcio Aneu Séneca. Tal importância deriva de circunstâncias várias: o facto de se situarem cronologicamente entre as produções da última fase da vida do autor e reflectirem, portanto, a forma mais amadurecida do seu pensamento; o facto de essa fase da vida de Séneca (que iria culminar no suicídio) se ter revestido de formas especialmente dramáticas que encontram eco, mais ou menos explícito, no texto; o facto de, pela sua própria amplitude, conterem uma soma de reflexões sobre enorme variedade de problemas, na sua totalidade de carácter ético; o facto de tais reflexões, conquanto assentes num quadro teórico perfeitamente delimitado e coerente, se revestirem de um carácter extremamente prático, isto é, de constituírem uma análise de situações concretas e de apreciações de grande grandeza sobre a natureza e o comportamento humanos; o facto de o quadro epistolar escolhido pelo autor para a sua exposição (quer se pense, como estamos em crer, que as Cartas representam uma correspondência efectiva mantida por Séneca com o seu destinatário, quer, como alguns entendem, que apenas resultam de uma mera ficção literária) se prestar à inclusão de numerosos elementos informativos sobre múltiplos aspectos da vida e da civilização romanas; o facto, enfim, de a natureza dos problemas que suscitam e discutem se revestir de uma pertinência transcendente à época em que foram redigidas e oferecer uma viva fonte de meditação para quem pretenda questionar-se sobre os valores da sociedade em que se insere. A persuasão de que a leitura de Séneca pode ser nos dias de hoje de uma utilidade prática evidente como precioso auxiliar no entendimento da natureza humana e na determinação da existência, levou-me a fazer um post sobre esta obra e o seu autor.

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O ANJO BRANCO(José Rodrigues dos Santos)


O ANJO BRANCO (JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS)

 

Baseando-se em factos reais, José Rodrigues dos Santos traz-nos desta vez uma obra sobre Moçambique, os portugueses, a guerra colonial e, sobretudo sobre o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar. 

A vida de José Branco mudou no dia em que entrou naquela aldeia perdida no coração de África e se deparou com o terrível segredo. O médico tinha ido viver na década de 1960 para Moçambique, onde, confrontado com inúmeros problemas sanitários, teve uma ideia revolucionária: criar o Serviço Médico Aéreo.

No seu pequeno avião, José cruza diariamente um vasto território para levar ajuda aos recantos mais longínquos da província. O seu trabalho depressa atrai as atenções e o médico que chega do céu vestido de branco transforma-se numa lenda no mato.

Chamam-lhe o Anjo Branco.

Mas a guerra colonial rebenta e um dia, no decurso de mais uma missão sanitária, José cruza-se com aquele que se vai tornar o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar.

Inspirado em factos reais e desfilando uma galeria de personagens digna de uma grande produção, O Anjo Branco afirma-se como o mais pujante romance jamais publicado sobre a Guerra Colonial – e, acima de tudo, sobre os últimos anos da presença portuguesa em África.

 

José Rodrigues dos Santos, dando prova da sua já conhecida e reconhecida capacidade de renovação constante, continua a surpreender. Com efeito, no seu novo romance, adopta um registo mais intimista e revela outra faceta aos seus muitos leitores, numa atitude de desassombro e coragem que não deixará de empolgar e até emocionar.

Este é um livro que todos os portugueses sentirão como muito próximo – pelas experiências, pelos acontecimentos narrados, pela repercussão dos factos.

O ENVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO(José Saramago)


ENVANGELLHO SEGUNDO JESUS CRISTO(JOSÉ SARAMAGO)

Jesus morre, morre, e já vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, tu és o meu filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência.

Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que faz. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes-me dar todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.

 Já que muitos empreenderam compor uma narração os factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído.´

LUCAS, 1, 1-4

 «É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

O livro O evangelho segundo Jesus Cristo do escritor português José Saramago é uma experiência literária imperdível. Publicado em 1991, o livro tornou-se um dos mais polémicos da carreira do escritor. E também um dos mais vendidos. Por causa dele, Saramago foi duramente criticado e até considerado sacrílego, mas isso apenas confirmou que a sua obra mexe com o leitor.

Quem imagina encontrar apenas crítica à religião está muito enganado. É uma obra que põe em dúvida não só a sacralização da história bíblica, mas também a sacralização científica. A própria linguagem mais próxima da falada (como se fosse um diálogo) já é uma diferenciação da linguagem sagrada das escrituras.  Não se trata, entretanto, de um livro realista e sim de uma tentativa de contar uma história de um ponto de vista humano. Para isso, o foco do livro é um Jesus humanizado.

Todo o primeiro capítulo do livro é uma descrição detalhada de uma gravura medieval que representa a cena da Paixão de Jesus Cristo. De forma abrupta, o leitor é, então, lançado à narração de uma história. A vida de Cristo é contada. O leitor está diante, então, de uma nova versão do mesmo acontecimento com os mesmos personagens. E esses acontecimentos são vistos à luz do presente e preenchido de realidade humana.

“… A barriga de Maria crescia sem pressa, tiveram de passar-se semanas e meses antes que se percebesse às claras o seu estado, e, não sendo ela de dar-se muito com as vizinhas, por tão modesta e discreta ser, a surpresa foi geral nas redondezas…”

A humanização de Jesus Cristo é construída ao longo do texto também pela omissão dos episódios biográficos em que ele foi descrito como ser eleito, capaz de dar vida. Até o desfecho da história marca essa humanidade: a narração termina com a morte de Jesus, ele não a supera como na história tradicional. 

Mas tudo é história e o narrador tem consciência que sua narrativa é “uma memória inventiva” e que “tudo é o que dissermos que foi”. É a ironia revelada não só no distanciamento em relação ao passado como também no pacto que ele faz com seu leitor ao longo do texto. Então, se topares o pacto com Saramago, com certeza terá uma óptima e inesquecível leitura.

O DIÁRIO DA NOSSA PAIXÃO (NICHOLAS SPARKS) THE NOTE BOOK


THE NOTE BOOK (NICHOLAS SPARKS)

Um livro escrito com uma força delicada e comovente, uma beleza supreendente e arrebatadora como há muito já não se encontrava na literatura recente…. 

Todas as manhãs ele lê para ela, de um caderno desbotado pelo tempo, uma história de amor que ela não recorda nem compreende. Um ritual que se repete diáriamente no lar de idosos onde ambos vivem agora. Pouco a pouco, ela deixa-se envolver pela magia da presença dele, do que ele lhe lê, pela ternura dele… e o milagre… acontece. A paixão renasce, transpõe o abismo do tempo, o abismo da memória, e por instantes ela volta para ele… apesar da doença. 

Mas haverá mais. 

Todos os dias, ele lê-lhe a história de um simples rapaz sulista e de uma rapariga destinada a brilhar na high society. A primeira paixão, clara como uma mnhã orvalhada de maravilha e descoberta. Afastados depois pela impiedosa exigência do abismo que os separa. Catorze anos mais tarde, ele é um sobrevivente da guerra e ela está a poucos dias de tornar-se a mulher de um outro homem. Mas volta por uma necessidade imperiosa de o rever. O reencontro traz de novo toda a magia. 

Terá o amor poder suficiente, desta vez? 

Mas haverá mais. Sempre. 

Este romance mostra duas perspectivas de um grande amor, de uma grande paixão que não acaba com o passar dos anos, mas que tem de se adaptar as diferentes fazes da vida, e ás partidas que a vida nos prega e das quais não podemos fugir.

 

A história começa com um simples amor de verão entre dois jovens de classes sociais diferentes, o Noah e a Allie, e que se transforma numa linda historia de amor travada pela família dela. Depois de uma série de desencontros, e de uma decisão drástica da família de Allie em colocar um fim naquele relacionamento, o jovem casal é então afastado durante uma série de anos.
Um certo dia, Allie volta a ter noticias de Noah através de um jornal, o que vai reavivar a sua memoria e mais importante do que isso, vai reavivar a sua paixão escondida, e agora também mais uma vez proibida, uma vez que Allie está noiva de um jovem que pertence a uma das famílias mais importantes da época.

  

Mas o que eles viveram no passado foi forte, e pelo menos mais uma vez ela terá de ver Noah, para poder prosseguir com a sua vida, esse pensamento não a deixa, até ao dia em que decide finalmente ir ao encontro dele. O tão esperado encontro corre como o esperado, o falar do passado, o recordar uma história vivida, mas o esconder de algo que ainda existe. Quando Allie decide voltar no dia seguinte a casa de Noah, é então consumada a verdadeira paixão dos dois quando se entregam nos braços um do outro. Neste momento levanta-se um grande dilema, ficar com o Noah ou continuar os seus planos futuros de casar com o noivo. A escolha cai certamente sobre Noah, era impossível deixar fugir aquilo que lhes escapou por entre os dedos á alguns anos atrás. 

Fala-se agora da segunda perspectiva que este livro aborda, que é o de um amor de uma vida, preenchida de tudo o que dois jovens apaixonados têm direito, preenchida com recordações, filhos e com um amor que apesar da idade não se apaga, e que se vê ameaçado por um terrível mal: a doença de alzheimer. 
 
 Esta doença apesar de não ser vista com a frieza de muitas das doenças mortais existentes, é bastante cruel no aspecto em que rouba o que de mais bonito existe no ser humano, que é a sua memória e as suas recordações.

Então de repente, vemo-nos perante o amor de um casal perto do fim da sua vida, e da tentativa constante de voltar a proporcionar ao outro momentos mágicos como tantos outros que já existiram. Ele, que acompanha a sua esposa nesta luta contra a sua doença, apesar de ele próprio também sofrer de vários males próprios da sua idade, mas que todos os dias lhe lê de um livro já meio gasto uma linda historia de amor, na esperança que a faça então recuperar nem que por breves instantes, essa mesma historia. 

É então que no fim deste fantástico livro, ficamos a saber que o idoso que todos os dias se aproxima daquela senhora e lhe lê uma linda história de amor, é Noah que vê agora Allie, o amor da sua vida com a terrível doença de alzheimer, e todos os dias lhe lê a historia de amor deles na esperança de a ajudar nem que seja por uns breves instantes a recordar também ela essa história de amor.


É um livro com uma historia de vida fantástica, com tudo o que podemos encontrar nos nossos dias, e que aborda num pequeno numero de folhas, duas fantásticas lições de vida a não esquecer, e que nos faz lembrar que a vida é sem duvida para ser vivida no seu pleno pois apenas temos uma e não sabemos até quando…

JOAN MIRÓ i FERRÀ «1893-1983»


JOAN MIRÓ (1893 - 1983)

Contemporâneo do fauvismo e do cubismo, Miró criou sua própria linguagem artística e procurou retratar a natureza como o faria o homem primitivo ou uma criança, que tivesse, no entanto, a inteligência de um homem maduro do Século 20.

Joan Miró nasceu em Barcelona, Espanha, a 20 de Abril de 1893. Apesar da insistência do pai em vê-lo licenciado, não completou os estudos. Frequentou uma escola comercial e trabalhou num escritório durante dois anos até sofrer um esgotamento nervoso. Em 1912, os seus pais finalmente consentiram que ingressasse na escola de arte belas artes de Barcelona. Estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris, transmitiu-lhe sua paixão pelos frescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha e o introduziu à fantástica arquitectura de António Gaudí.

Os primeiros trabalhos receberam a influência dos pós-impressionistas, especialmente de Vincent Van Gogh e depois de Matisse. Instalou-se em Paris em 1920, e aí conheceu Picasso. Integrou-se no movimento surrealista e participou na primeira exposição surrealista em 1925.

Miró trazia intuitivamente a visão despojada de preconceitos que os artistas das escolas fauvista e cubista buscavam, mediante a destruição dos valores tradicionais. na sua pintura e desenhos, tentou criar meios de expressão metafórica, ou seja, descobrir signos que representassem conceitos da natureza num sentido poético e transcendental. Nesse aspecto, tinha muito em comum com dadaístas e surrealistas.

De 1915 a 1919, Miró trabalhou em Montroig, próximo a Barcelona, e em Maiorca, onde pintou paisagens, retratos e nus. Depois, viveu em Montroig e Paris alternadamente. De 1925 a 1928, influenciado pelo dadaísmo, pelo surrealismo e principalmente por Paul Klee, pintou cenas oníricas e paisagens imaginárias. Após uma viagem aos Países Baixos, onde estudou a pintura dos realistas do século XVII, os elementos figurativos ressurgiram nas suas obras.

Na década de 1930, os seus horizontes artísticos ampliaram-se. Fez cenários para balés, e os seus quadros passaram a ser expostos regularmente em galerias francesas e americanas. As tapeçarias que realizou em 1934 despertaram o seu interesse pela arte monumental e mural. Estava em Paris no fim da década, quando eclodiu a guerra civil espanhola, cujos horrores influenciaram sua produção artística desse período.

No início da segunda guerra mundial voltou à Espanha e pintou a célebre “Constelações”, que simboliza a evocação de todo o poder criativo dos elementos e do cosmos para enfrentar as forças anónimas da corrupção política e social causadora da miséria e da guerra.

A partir de 1948, Miró mais uma vez dividiu o seu tempo entre a Espanha e Paris. Nesse ano iniciou uma série de trabalhos de intenso conteúdo poético, cujos temas são variações sobre a mulher, o pássaro e a estrela. Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe a técnica altamente elaborada, e esse contraste também aparece nas suas esculturas. Miró tornou-se mundialmente famoso e expôs seus trabalhos, inclusive ilustrações feitas para livros, em vários países.

Executou murais de grandes dimensões, nomeadamente para a Exposição Universal de Paris de 1937 e para a Universidade de Harvard, em 1950, e murais em cerâmica para a sede da Unesco em Paris, em 1955. Fez peças em cerâmica originais, semelhantes às figuras que povoam os seus quadros.


Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra. Joan Miró morreu em Palma de Maiorca, Espanha, a 25 de Dezembro de 1983.

OS ÚLTIMOS MESES DE SALAZAR «Paulo Otero»


OS ÚLTIMOS MESES DE SALAZAR

“Salazar estava prisioneiro dele próprio”

Um homem “frágil”, “idoso” e “doente” mas que continuava a ser a personificação do Estado Novo. Este é um dos retratos de António de Oliveira Salazar meses antes de morrer. O fim da vida do estadista é descrito no livro “Os últimos meses de Salazar”, de Paulo Otero, publicado quando passam 40 anos sobre a sua morte.

Salazar foi “prisioneiro” do regime nos últimos meses de vida

“O livro retrata o período do acidente até à morte de Salazar, enquanto homem e ex-político”, explica o autor da obra, editada no ano em que se assinalam 40 anos da morte do estadista de Santa Comba Dão, que faleceu a 27 de Julho de 1970.
Desde a “célebre” queda da cadeira em 1968, sobre a qual existem duas versões possíveis, à cirurgia ao cérebro, até à agonia final em São Bento, o livro mostra um período “pouco conhecido” da vida do ditador.

“Salazar estava prisioneiro dele próprio”, diz Paulo Otero. “Uma pessoa idosa e frágil, que não manda mas é mandada e que não instrumentaliza mas é instrumentalizada”, completa o autor, que recorreu a diversas fontes para preparar esta investigação bibliográfica.

A instrumentalização do político começa quando Salazar é hospitalizado em Setembro de 1968. A idade avançada do ditador já tinha levantado a questão de um sucessor mas Salazar “nunca tomou a iniciativa de apresentar demissão”, lembra Paulo Otero.

Marcello Caetano é nomeado novo Chefe de Governo por Américo Tomaz depois de Salazar ter sofrido um acidente vascular cerebral, e de ser internado na Casa de Saúde da Cruz Vermelha em Lisboa, com pouca esperança de sobreviver e de retomar o poder.

Salazar vive num “mundo de ilusão”

O político vai passar os últimos meses de vida julgando que ainda era Chefe de Governo, vítima de um “jogo” de interesses políticos, do qual “o presidente da República foi cúmplice”, refere o autor do livro.

Através de uma selecção das notícias que eram lidas a Salazar, do seu regresso a São Bento depois de sair do hospital, das reuniões que tinha com ministros e com Américo Tomaz, foi criado um “mundo de ilusão”, “uma aparência formal de que Salazar ainda tinha o poder”, conta Paulo Otero.

Além dos políticos do Estado Novo, também as pessoas mais íntimas de Salazar, em especial agovernanta Maria de Jesus, tiveram um “papel central na montagem deste cenário irreal”. Paulo Otero acredita que o político “morreu com a convicção” de que ainda era Presidente do Conselho.

Marcello Caetano, recém-chegado ao Governo, esforçou-se para a construção de um retrato público de Salazar “doente e inválido”, para tal contribuiu uma emissão televisiva de um filme “manipulado” que mostrava um homem “velho e caquético”.

O “retrato real de Salazar” aponta para um homem semi-lúcido, que tinha consciência das suas funções, embora muito debilitado fisicamente: “paralisado de todo o lado esquerdo e “parcialmente cego”.

Homem para além do político

Paulo Otero sublinha, contudo, que se Marcello Caetano esforçou-se por começar o processo de “dessalarização”, foi Américo Tomaz “o verdadeiro herdeiro do regime”, que “assegurou o salazarismo sem Salazar”, conclui o autor.

Marcello Caetano tinha “os braços e as pernas amarradas” pelo controlo de Américo Tomaz, sob a imposição de continuar a defender o “ultramar e a manutenção das colónias”, a principal causa para a Revolução de Abril de 1974, recorda Paulo Otero. Além do protagonismo de Américo Tomaz, o livro pretende mostrar que “todo o político também é um ser humano”, diz Paulo Otero, “mesmo aquele que teve em si concentrado todo o poder”, completa o professor de Direito.

Outra “ideia” a ser retirada da investigação é a “relação entre amizade e poder”. “O poder gera amizades e interesses”, explica o autor, referindo que Salazar acabou sozinho e esquecido quando perdeu a capacidade de governar.

Salazar ainda é “referência”

Volvidos 40 anos da morte do ditador, “Salazar ainda é uma referência pela positiva ou negativa”, diz Paulo Otero. “Daqui a alguns anos, se tivermos de escolher o principal político do século XX, diremos que foi Salazar”, acredita o professor de Direito.

MEMORIAL DO CONVENTO «JOSÉ SRAMAGO»


MEMORIAL DO CONVENTO

O romance Memorial do Convento contribuiu decisivamente para a afirmação de José Saramago como um dos mais importantes romancistas do nosso tempo.

A sua prosa sedutora configura aqui um mundo assinalado por cruas realidades e sonhos a cumprir. Há a promessa de um Rei, um convento a edificar, aqueles que o erguerão, um soldado maneta, uma mulher capaz de visões, um padre que sonhava voar, os autos-de-fé… A história de Baltazar e Blimunda constitui, assim, um marco na obra de José Saramago, que foi galardoado com o Prémio Nobel da literatura em 1998.

Para a forca ia um homem: e outro que o encontrou lhe dice: Que é isto senhor fulano, assim vay v.m.? E o enforcado respondeo: yo no voy, estes me lleban.

P.ª Manuel Velho

Je sais que je tombe dans l’ inexplicable, quand j’affirme que la réalité – cette notion si flottante -, la connaissance la plus exscte possible des êtres est notre point de contact, et notre voie d’accès aux choses qui dépassent la réalité.

Marguerite Yourcenar

José Saramago, enquanto pessoa, gerava amores e ódios. De uma personalidade irascível, aliava a sua experiência de vida ao seu pedantismo o que, com o status adquirido, o torna uma das maiores personalidade do panorama português dos sécs. XX e XXI.

Esse pedantismo a roçar por vezes o exagero, é transportada para a maioria das suas obras, onde e com uma mestria que lhe granjeia invejas, alia o seu dom de contador de histórias à de crítico de toda uma sociedade (fundamentalmente a portuguesa) e também ao da escrita ou, se quisermos, uma construção do texto e da narração inovadora e difícil de acompanhar.

Pessoalmente gostava e muito do Saramago crítico, não me identifico com a sua ideologia política nem compreendia, por vezes, as suas observações, mas e mesmo vivendo em Espanha, não se contentava com o rumo do nosso país e gosto especialmente quando ele resolve arrasar nos seus romances, como são os casos do “Ensaio sobre a cegueira” e “Evangelho segundo J.C.”.

No entanto e desta vez, proponho-me opinar sobre o Memorial do Convento que é, quanto a mim, uma das Grandes Obras da literatura portuguesa do séc. XX, um portento de inspiração e de uma beleza artística apenas ao alcance dos Maiores.

Ler Saramago, como anteriormente referi, não é fácil. Porém à medida que começamos a compreender o seu estilo, a leitura torna-se fluída e todo aquele aglomerado de letras, aparentemente sem pontuação, deixa de ter importância, porque a pontuação está lá e o homem tinha mesmo jeito para contar histórias.

Quanto ao livro:

Temos duas personagens principais que já correram mundo: Blimunda e Baltasar. Ela “Sete Luas” e ele “Sete Sóis”, ela uma mulher que consegue ver os corpos à transparência quando em jejum e ele, um ex-soldado que regressa da guerra sem uma mão e quase sem alma, apenas o seu corpo lhe dá a aparência de ser humano.

Numa época dominada pela inquisição, um padre constrói um estranho artefacto a que lhe chama Passarola e tenta convencer o rei que aquilo pode voar, esse rei (D. João V) bem tenta que a sua mulher, a rainha D. Maria Josefa, engravide, no entanto “se quiseres um infante, manda construir um convento” diz-lhe um monge e o rei, temente a Deus, faz nascer a principal figura do livro: O Convento de Mafra.

Acompanhamos então toda a construção e ao mesmo tempo as aventuras e desventuras dos personagens antes mencionados, para, no fim, ficarmos estupidificados com a surpresa que Saramago nos guarda. Li o livro e fico com um nó na garganta com as páginas finais.

Um livro que já deu uma ópera que e pelo que tenho lido, deve ser arrepiante, pois no fim existe um coro de padecimento e martírios…

Um romance extraordinário!