Archive for the ‘ LITERATURA ’ Category

PAULO COELHO ( O CORPO DE UMA MULHER)


Muito bom este texto. Vem fazer ver à mulher que  vive obcecada com a balança que para o sexo oposto, o peso é de certa forma irrelevante… A beleza feminina é muito mais do que apenas o que indica a balança. ora confira…

 

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Não importa o quanto pesa. É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher. Saber seu peso não nos proporciona nenhuma “emoção.

Não temos a menor ideia de qual seja seu manequim. Nossa avaliação é visual, isso quer dizer, se tem forma de guitarra… está bem. Não nos importa quanto medem em centímetros – é uma questão de proporções, não de medidas.

As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheinhas, femininas… . Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fração de segundo. As magrinhas que desfilam nas passarelas, seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays e odeiam as mulheres e com elas competem. Suas modas são retas e sem formas e agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.

Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura. A elegância e o bom trato, são equivalentes a mil viagras.

A maquiagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem! Para andar de cara lavada, basta a nossa. Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

As saias foram inventadas para mostrar suas magníficas pernas… Porque razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam conosco? Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras e pronto. Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão e eu reitero: nós gostamos assim. Ocultar essas formas, é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

É essa a lei da natureza… que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréxica, bulêmica e nervosa logo procura uma amante cheinha, simpática, tranqüila e cheia de saúde.

Entendam de uma vez! Tratem de agradar a nós e não a vocês. porque, nunca terão uma referência objetiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher. Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda.

MULHER

As jovens são lindas… mas as de 40 para cima, são verdadeiros pratos fortes. Por tantas delas somos capazes de atravessar o atlântico a nado. O corpo muda… cresce. Não podem pensar, sem ficarem psicóticas que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18. Entretanto uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento ou está se auto-destruindo.

Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir sua vida com equilíbrio e sabem controlar sua natural tendência a culpas. Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade (a dieta virá em Setembro, não antes; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade (sem sabotagem e sem sofrer); quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.

Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tira a beleza. São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não tiveram anos ‘em formol’ nem em spa… viveram! O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, ninados e nós, sem querer, as enchemos de estrias, de cesárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.

Cuidem-no! Cuidem-se!

A beleza é tudo isto.

Paulo Coelho

Pesquisa elaborada por:

Paulo Coelho

Fonte: Textos de Paulo coelho (escritor)

 

ANTÓNIO PAISANA E SALVADOR MENDES DE ALMEIDA SALVADOR


Salvador Pereira Palha Mendes de Almeida nasceu em lisboa a 13 de Março de 1982. Em 2 de Agosto de 1998 sofreu um acidente que o deixou tetraplégico. É formado em Marketing e publicidade pelo Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing, IADE. É presidente da fundação Salvador que fundou no ano de 2003.

António Lino Netto Paisana nasceu a 28 de Janeiro de 1980, em Lisboa. Estudou Direito na Universidade Católica de Lisboa (1998 – 2004), tendo terminado a agregação à ordem dos advogados em Outubro de 2006.

            Durante o curso viveu um ano na Grécia, em Tessalónica (2001 – 2002) no âmbito do programa Erasmus. Em Setembro de 2006 publica o seu primeiro romance, “Erasmus de Salónica”. Em 2007 foi um dos fundadores da revista Lisbon Golden Guide, sendo à presente data o seu director.

 

PREFÁCIO

                Já não o via há muito tempo. Aliás não me lembrava de o ter encontrado como “pessoa”. A recordação que tinha dele era de um “doente” com uma fractura de coluna cervical muito grave, que sofrera todas as complicações que podem suceder neste tipo de traumatismos. De tudo isto ele escapara porque fora muito bem tratado por uma equipa de médicos do hospital de Santa Maria (estou à vontade para o dizer, porque só estive indirectamente ligado ao caso), mas esse período terrível sumira-se no alçapão misericordioso que a memória por vezes abre para sepultar para sempre o sofrimento.

                Agora, no meu gabinete, numa cadeira que me pareceu pronta para uma corrida de formula 1, ele vinha pedir-me umas palavras de introdução para este livro, de uma forma despretensiosa e feliz. O facto de saber que ele tinha as qualidades daqueles que, na outra terra onde vivi, eram classificados como “survivors”, foi razão suficiente para aceitar. E que óptima surpresa fui encontrar!

Esta é a história de um “Salvador” e de um “salvado” que, por acaso, são uma e mesma pessoa – “Salvador”. A história é contada numa única noite (a narrativa nocturna foi uma técnica que Sherazade inventou para não lhe cortarem o pescoço…), em discurso directo a um amigo. Porque sempre entendi que os testemunhos de que vive a doença ou a incapacidade nos ensinam muito mais sobre o sofrimento humano do que muitos tratados de medicina, leio-os sempre com interesse e, quando numa idade em que se pode pensar que já se viu tudo e nada há a aprender, se aprende alguma coisa nova, é sempre razão de júbilo.

De facto, através destas narrativas “patográficas” – ou seja reatos por doentes da sua própria doença – percebe-se melhoro sofrimento de estar doente do ponto de vista ético e técnico. Devo dizer, por exemplo, que passei a utilizar a ideia do Salvador que era a cadeira de rodas que estava presa a ele e não o oposto!

Impressionou-me nesta leitura a sensibilidade, inesperadamente madura, que revela, o tacto com que fala dos sentimentos, a liberdade como trata do amor e da sexualidade, como se a intensidade da tragédia (e o termo não é excessivo) que viveu, lhe tivesse acelerado a vida e o tornara precocemente sábio.

Esta é também uma lição de “esperança prudente”, uma ideia que talvez valha a pena explicar. Tenho dito (e escrito) que o problema da esperança é uma das matérias mais difíceis de tratar no tempo de uma medicina que é por vezes demasiado rápida a celebrar vitórias, algumas bem efémeras, outras enganadoras. A área dos traumatismos medulares é certamente daquelas em que se têm anunciado as curas mais miraculosas, e milhares de doentes têm sido submetidos a intervenções fúteis e, não raramente fraudulentas. Mas, ao mesmo tempo, é também objecto de investigação intensa, sobretudo através de modelos animais que, no entanto, são uma réplica muito rudimentar da função motora dos humanos. Uma das confissões mais pungentes do Salvador é a dificuldade simples de arranjar os lençóis da cama, coisa de que nenhum ratinho se irá algum dia queixar…

Logo no inicio da doença prometeram-lhe, em profecia optimista, que iria andar oito anos depois, e que a cura ia surgir. Mas isso não parece ter sido nunca uma obsessão para o Salvador, e tantas vezes eu verifiquei que este tipo de fixação ou miragem arrisca-se a abafar tudo o resto, e a tal profecia não cumprida acaba por ter consequências terríveis no ânimo do doente. A esperança que aqui é transmitida é aquela que renasce todas as manhãs com a simples alegria de viver mais um dia, e que anima o Salvador nos seus projectos da profissão e da família, porque, quanto ao andar, o Dr. Ascenso tudo esclareceu quando lhe disse: “olho para ti e vejo alguém que anda, que caminha, só que o fazes de forma diferente…”

Só por duas ou três vezes ele conta que terá chorado. É possível que tenham sido mais, porque seria incompreensivelmente desumano ou assumidamente sobrenatural que tal não tivesse acontecido. Mas, igualmente, a interrogação de job “Porquê eu?”, não o assaltou demasiado, e o sentido insondável de certos castigos não parece tê-lo revoltado. Importa sim, sublinhar, que os privilégios do berço que facilitaram a sua reintegração social (para usar a seca terminologia técnica), criaram nele a obrigação sentida de partilha com outros das suas experiências, e para tentar contribuir para criar condições que facilitem a vida de quem sofre deste tipo de “handicaps”. E este é, para mim, outro ponto fundamental que ressalvo, pois a lição evangélica das parábolas do semeador e dos talentos tem para mim um supremo valor moral.

Confesso que li o manuscrito no meu consultório, em pedaços de tempo que iam surgindo entre consultas e operações. E quando interrompia a leitura, porque se sentava na minha frente outro doente e começava a desfiar a sua história, eu sentia-me mais paciente, mais tolerante, mais humano afinal. Por isso, também aqui, devo um pouco ao salvador

Esta é a história de um rapaz que com uma coragem única se fez homem e, porque não perdeu a esperança, se salvou.

João Lobo Antunes

 

“Este livro fala da liberdade interior que é a única que nos permite ser verdadeiramente felizes. O salvador é para todos um testemunho contagiante de alegria, entusiasmo e força de vontade. O seu livro conta uma história de superação que nos comove, que muda o nosso olhar e nos transforma para sempre. Ficamos diferentes depois de o ler.”

 

LAURINDA ALVES

 

“ (…) Lembro-me também como se fosse hoje, de sentir que o céu estava apenas a um palmo de distância, que se eu quisesse poderia tocar as nuvens, sentir a sua textura, e que no instante preciso em que me preparava para o fazer, os meus braços continuavam pregados ao chão. (…) “

IN SALVADOR

 

“ (…) Esta é a história de um rapaz que com uma coragem única se fez homem e, porque não perdeu a esperança se salvou. (…)

JOÃO LOBO ANTUNES´

Para mais informações visite o Site:

Www.associacaosalvador.com

A Associação Salvador, sem fins lucrativos promove a solidariedade pelos interesses e direitos das pessoas com deficiência. Esta instituição desenvolve o seu trabalho em torno de três eixos fundamentais: Investigação cientifica, Sponsorship e um conjunto de Acções anuais com um enfoque nas áreas de: Acessibilidades, Integração, Prevenção Rodoviária, Turismo e Cooperação Internacional.

Este é um livro que recomendo a todos os amantes da leitura ou não, um livro que nos torna diferentes depois de o ler. Ficamos mais humanos, ajuda-nos a perceber e compreender o que por vezes nos parece imcompreencivel… dificil de entender por não termos dificuldades a enfrentar as barreiras fisicas e sociais anda existentes na sociedade dita moderna, sociedade esta construida a pensar na generalidade dos seres humanos e não como acho que deveria ser, uma sociedade adaptada aos cidadões com dificuldades fisicas, dificuldade em transpor as barreiras fisicas e sociais da sociedade do século XXI.

PAULO COELHO

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FERNADO PESSOA (13/06/1888 – 30/11/1935)


Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis

Escritor português, que nasceu a 13 de Junho, de 1888 numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitima de tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, foi viver para esse país entre 1895 e 1905, aí frequentou, o Liceu de Durban.
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
Regressou definitivamente a Lisboa, em 1905, onde frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreu a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paúlismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes, (Alvaro Campos, Alberto Caeiro, e Ricardo Reis).
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.

A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. 


 Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista.

 Fernado Pessoa comemora hoje 123 anos, sim comemora. Um poéta Lusitano que através do seu legado, se transformou num imortal… entre mortais, a sua obra literária continua actual e a despertar o mesmo interesse que sempre despertou aos ama…ntes da leitura, mesmo com o passar dos anos continua a ser uma referencia se não mesmo a principal referencia da lingua portuguesa a par de José saramago  quer em Portugal, quer no estrangeiro!

Trabalho Elaborado por:

Paulo Coelho

Fonte: a Web

ASSOBIO REBELDE – MARIA DOS ANJOS – GERAÇÃO À RÁSCA – A NOSSA CULPA…


 Este texto pertence à Assobio, Mª dos Anjos e não a Mia Couto.

http://assobiorebelde.blogspot.com

 

“Um dia, isto tinha de acontecer.

Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa
abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes
as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus
jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a
minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)
vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós
1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram
nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles
a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes
deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de
diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as
expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou
presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o
melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas
vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado
com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A
vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem
Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde
não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar
a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de
aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a
pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e
da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que
os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,
nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter
de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e
que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,
porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,
querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo
menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que
o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois
correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso
signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas
competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por
não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração
que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que
queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a
diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que
este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo
como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as
foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não
lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de
montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o
desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e
nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como
todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados
pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham
bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos
que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,
oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no
que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida
e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem
fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e
a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço? “

Este texto não é de Mia Couto. Já faz algum tempo que estão a circular isso pela internet equivocadamente. O próprio Mia já declarou em um blog que não foi ele quem escreveu. Vejam aqui:

http://sobreliteraciadigital.wordpress.com/2011/04/16/como-confirmar-a-autoria-de-um-texto-de-mia-couto/

Este texto pertence à Assobio, Mª dos Anjos.

http://assobiorebelde.blogspot.com/2011/03/geracao-rasca-assobio-rebelde-mia-couto.html

CARTAS A LUCÍLIO (Lúcio Aneu Séneca)


 

Lúcio Aneu Séneca

Lucílio Aneu Séneca nasceu em Córdova em data indeterminada, cerca do início da nossa era. Seu pai, de nome também Lucílio Aneu Séneca (conhecido por Séneca-o-Retor, para o distinguir do filho Séneca-o-Filósofo) trouxe-o ainda criança para Roma, onde estudou com mestres de várias tendências filosóficas, mas especialmente de obediência estóica.

Durante o principado de Gaio (Calígula) iniciou uma brilhante carreira como advogado, mas logo após a subida ao poder do imperador Cláudio foi por este exilado para a Córsega, onde se manteve durante 8 anos. Em 49, a nova esposa do Imperador, Agripina, conseguiu a anulação do exílio, chamou Séneca a Roma e confiou-lhe a educação do jovem Nero. Morto Cláudio e aclamado Nero como novo Imperador pela guarda pretoriana, começa a fase mais importante da carreira política de Séneca. A partir de 62, porém, as tendências autocráticas de Nero afirmam-se decididamente e Séneca retira-se à vida privada. 3 Anos depois, uma conjura para derrubar Nero é descoberta e o filósofo é dado como implicado nela, recebendo ordem do Imperador para se suicidar, o que acontece em Abril de 65. – A obra conservada de Séneca é considerável, nela se compreende uma virulenta sátira à morte de Cláudio, uma série de 10 tragédias (sendo algumas de autenticidade discutida), um volumoso tratado sobre os benefícios, um manifesto político sobre a clemência, um conjunto de vários opúsculos sobre problemas vários de filosofia moral prática (conhecidos sob a designação de Diálogos), as Questões naturais (tratado sobre vários problemas de ordem científica). A sua obra mais importante, escrita durante os últimos anos de vida, são no entanto, as Cartas a Lucílio, que mostram Séneca na plena posse dos seus recursos como pensador inserido na corrente estóica: “filósofo da condição humana” como lhe chamou o Padre Manuel Antunes, as Cartas conservam uma flagrante actualidade dada a intemporalidade dos problemas tratados e pertinência dos valores morais a que o autor faz constantemente apelo.

Cartas a Lucílio «Séneca» (Fundação Galouste Gulbenkian)

 

As Cartas a Lucílio – Epistulae morales ad Lucilium – São geralmente consideradas a obra mais importante de quantas subsistem da autoria de Lúcio Aneu Séneca. Tal importância deriva de circunstâncias várias: o facto de se situarem cronologicamente entre as produções da última fase da vida do autor e reflectirem, portanto, a forma mais amadurecida do seu pensamento; o facto de essa fase da vida de Séneca (que iria culminar no suicídio) se ter revestido de formas especialmente dramáticas que encontram eco, mais ou menos explícito, no texto; o facto de, pela sua própria amplitude, conterem uma soma de reflexões sobre enorme variedade de problemas, na sua totalidade de carácter ético; o facto de tais reflexões, conquanto assentes num quadro teórico perfeitamente delimitado e coerente, se revestirem de um carácter extremamente prático, isto é, de constituírem uma análise de situações concretas e de apreciações de grande grandeza sobre a natureza e o comportamento humanos; o facto de o quadro epistolar escolhido pelo autor para a sua exposição (quer se pense, como estamos em crer, que as Cartas representam uma correspondência efectiva mantida por Séneca com o seu destinatário, quer, como alguns entendem, que apenas resultam de uma mera ficção literária) se prestar à inclusão de numerosos elementos informativos sobre múltiplos aspectos da vida e da civilização romanas; o facto, enfim, de a natureza dos problemas que suscitam e discutem se revestir de uma pertinência transcendente à época em que foram redigidas e oferecer uma viva fonte de meditação para quem pretenda questionar-se sobre os valores da sociedade em que se insere. A persuasão de que a leitura de Séneca pode ser nos dias de hoje de uma utilidade prática evidente como precioso auxiliar no entendimento da natureza humana e na determinação da existência, levou-me a fazer um post sobre esta obra e o seu autor.

O ANJO BRANCO(José Rodrigues dos Santos)


O ANJO BRANCO (JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS)

 

Baseando-se em factos reais, José Rodrigues dos Santos traz-nos desta vez uma obra sobre Moçambique, os portugueses, a guerra colonial e, sobretudo sobre o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar. 

A vida de José Branco mudou no dia em que entrou naquela aldeia perdida no coração de África e se deparou com o terrível segredo. O médico tinha ido viver na década de 1960 para Moçambique, onde, confrontado com inúmeros problemas sanitários, teve uma ideia revolucionária: criar o Serviço Médico Aéreo.

No seu pequeno avião, José cruza diariamente um vasto território para levar ajuda aos recantos mais longínquos da província. O seu trabalho depressa atrai as atenções e o médico que chega do céu vestido de branco transforma-se numa lenda no mato.

Chamam-lhe o Anjo Branco.

Mas a guerra colonial rebenta e um dia, no decurso de mais uma missão sanitária, José cruza-se com aquele que se vai tornar o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar.

Inspirado em factos reais e desfilando uma galeria de personagens digna de uma grande produção, O Anjo Branco afirma-se como o mais pujante romance jamais publicado sobre a Guerra Colonial – e, acima de tudo, sobre os últimos anos da presença portuguesa em África.

 

José Rodrigues dos Santos, dando prova da sua já conhecida e reconhecida capacidade de renovação constante, continua a surpreender. Com efeito, no seu novo romance, adopta um registo mais intimista e revela outra faceta aos seus muitos leitores, numa atitude de desassombro e coragem que não deixará de empolgar e até emocionar.

Este é um livro que todos os portugueses sentirão como muito próximo – pelas experiências, pelos acontecimentos narrados, pela repercussão dos factos.

O ENVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO(José Saramago)


ENVANGELLHO SEGUNDO JESUS CRISTO(JOSÉ SARAMAGO)

Jesus morre, morre, e já vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, tu és o meu filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência.

Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que faz. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes-me dar todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.

 Já que muitos empreenderam compor uma narração os factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído.´

LUCAS, 1, 1-4

 «É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

O livro O evangelho segundo Jesus Cristo do escritor português José Saramago é uma experiência literária imperdível. Publicado em 1991, o livro tornou-se um dos mais polémicos da carreira do escritor. E também um dos mais vendidos. Por causa dele, Saramago foi duramente criticado e até considerado sacrílego, mas isso apenas confirmou que a sua obra mexe com o leitor.

Quem imagina encontrar apenas crítica à religião está muito enganado. É uma obra que põe em dúvida não só a sacralização da história bíblica, mas também a sacralização científica. A própria linguagem mais próxima da falada (como se fosse um diálogo) já é uma diferenciação da linguagem sagrada das escrituras.  Não se trata, entretanto, de um livro realista e sim de uma tentativa de contar uma história de um ponto de vista humano. Para isso, o foco do livro é um Jesus humanizado.

Todo o primeiro capítulo do livro é uma descrição detalhada de uma gravura medieval que representa a cena da Paixão de Jesus Cristo. De forma abrupta, o leitor é, então, lançado à narração de uma história. A vida de Cristo é contada. O leitor está diante, então, de uma nova versão do mesmo acontecimento com os mesmos personagens. E esses acontecimentos são vistos à luz do presente e preenchido de realidade humana.

“… A barriga de Maria crescia sem pressa, tiveram de passar-se semanas e meses antes que se percebesse às claras o seu estado, e, não sendo ela de dar-se muito com as vizinhas, por tão modesta e discreta ser, a surpresa foi geral nas redondezas…”

A humanização de Jesus Cristo é construída ao longo do texto também pela omissão dos episódios biográficos em que ele foi descrito como ser eleito, capaz de dar vida. Até o desfecho da história marca essa humanidade: a narração termina com a morte de Jesus, ele não a supera como na história tradicional. 

Mas tudo é história e o narrador tem consciência que sua narrativa é “uma memória inventiva” e que “tudo é o que dissermos que foi”. É a ironia revelada não só no distanciamento em relação ao passado como também no pacto que ele faz com seu leitor ao longo do texto. Então, se topares o pacto com Saramago, com certeza terá uma óptima e inesquecível leitura.