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CLEÓPATRA


Busto de Cleópatra VII, Berlim.

Sobre Cleópatra VII muito pouco se sabe e o que chegou até nós foi porque ela cruzou o caminho dos imperadores romanos Júlio César, Marco António, e Octávio Augusto.

A sua família, de origem grega, estabeleceu-se no Egipto quando da conquista deste por parte do macedónio Alexandre Magno. Ptolomeu I (“Sóter”), um grande general do seu exército tornou-se governante do Egipto de 323 a. c., a 283 a. c., dando origem á dinastia Ptolemaica na terra dos faraós, fazendo de Alexandria a mais importante cidade da época. Foi através do historiador grego Plutarco que se soube a data de nascimento de Cleópatra. O autor fala na obra “Vida de António” que a rainha do Egipto morreu aos 39 anos. Segundo fontes antigas, sabe-se que ela se suicidou através da mordida de uma cobra venenosa (“Áspide”), símbolo real do antigo Egipto a 12 de Agosto do ano 30 a.C., calcula-se que ela tenha nascido durante o ano de 69 a. c.

Cleópatra era filha de Ptolomeu XII, apelidado Auleta (“o flautista”), talvez numa alusão ao seu Gosto pela música que parecia colocar antes das tarefas governativas e de Cleópatra VI Trifena, provavelmente irmã de seu marido. Não há confirmação de que Cleópatra seja filha da irmã-esposa de Ptolomeu XII e, inclusive cogita-se a ideia de que ela seria uma filha ilegítima. A sua irmã mais velha chamava-se Berenice IV e a mais nova, Arsinoe. Como irmãos teve: Ptolomeu XIII e Ptolomeu XIV.

Segundo Plutarco, Cleópatra era uma Mulher letrada, fontes antigas enfatizam a sua inteligência e diplomacia  dominava o aramaico, o hebreu, o árabe, o etíope, o latim, o grego, a língua dos Medas etc., num total de 9 línguas. Escreveu livros sobre pesos e medidas, cosméticos e magia. A sua apurada educação proporcionar-lhe-ia a preparação intelectual para, tempos mais tarde, manipular personagens importantes da sua época com o único objectivo de manter o Egipto como um estado independente.

Cleópatra foi também testemunha do reinado atribulado do pai. Ptolomeu XII, filho ilegítimo de Ptolomeu IX (“Latiro”), que chegou ao trono por não existir herdeiro directo. Era impopular entre a população de Alexandria e manteve-se no poder graças ao apoio de Roma, pelo qual teve que pagar vastas somas de dinheiro, conseguidas através de pesados tributos impostos ao povo.  Más decisões políticas, internas e externas, fizeram com que perdesse a ilha de Chipre, tradicionalmente egípcia, motivando a revolta entre os seus súbditos e obrigando-o a abandonar Alexandria no ano 58 a. C.

Deixando o poder nas mãos da sua filha Berenice IV eleita nova soberana do Egipto. Exilado e refugiado em Éfeso, dois anos mais tarde com a força das armas e a ajuda do governo romano da Síria conseguiu Recuperar o trono. Como a sua filha Berenice reagiu e não lhe quis devolver o poder, este mandou executá-la. Deste modo, Cleópatra alcança a primeira posição na linha de sucessão.

Antes de falecer, Ptolomeu XII tentou estabelecer uma monarquia de coligação entre os seus filhos. Mas, ao morrer, no ano 51 a.C., é Cleópatra que sobe ao trono com apenas 17 anos de idade. Seguindo o costume da dinastia, ptolemaica que regia que a rainha deveria ser casada, Cleópatra casou-se com o irmão Ptolomeu XIII que teria cerca de quinze anos de idade.

Inexperientes e cercados por homens da corte que ambicionavam o poder e que exerciam um domínio sobre o irmão de Cleópatra: (“Teódoto, preceptor de Ptolomeu XIII, o eunuco Potino e o oficial do exército Aquilas”), em 49 a.C. Cleópatra fornece ao filho do triúnviro Pompeu,  Gneu Pompeu, sessenta barcos para se juntarem à frota que lutava contra Júlio César. Há notícias de que no final desse mesmo ano, Ptolomeu XIII teria sido declarado amigo, aliado do povo romano e colocado sobre a tutela de Pompeu, já que era menor de idade.

Ptolomeu XIII aspirava matar a irmã-esposa para ficar com o trono do Egipto. Cleópatra ante as circunstâncias declarou guerra ao irmão, perante o comportamento da rainha, os conselheiros insinuaram que Cleópatra pretendia governar sozinha e colocaram o povo de Alexandria contra Cleópatra, que foi obrigada a fugir para o sul do Egipto e depois para a Síria, onde conseguiu reunir um exército na cidade de Pelúsio, para combater o irmão. Entretanto a situação internacional altera-se quando a 9 de Agosto de48 a.C. Pompeu é vencido por César na Batalha de Farsália, na Tessália. Após a derrota este procura refúgio em Alexandria, tendo Ptolomeu XIII declarado que aceitava recebê-lo. Contudo, influenciado pelos seus conselheiros o rei tinha outros planos, ordenar a morte de Pompeu, julgando que desta forma agradaria a César. O assassino de Pompeu, um romano ao serviço de Ptolomeu XIII, corta-lhe a cabeça, que o rei apresentou a César. No entanto, esta atitude foi um erro, dado que César ficou horrorizado com o acto bárbaro. Apesar de inimigos políticos, Pompeu tinha casado com a filha de César, que morreu dando à luz um filho. César toma Alexandria e decide resolver o conflito entre Ptolomeu XIII e Cleópatra.

Afastada do palácio real, Cleópatra deseja encontrar-se com César.

Conta Plutarco, num episódio lendário da sua biografia dos Césares, que Cleópatra marcou um encontro com Júlio César, quando este chegou ao Egipto, no inverno de 48 a.C. – 49 a.C., a fim de lhe dar um presente, que consistia num tapete. Este, ao ser desenrolado, mostrou que a própria rainha estava no seu interior (Cleópatra teria sido enrolada no tapete pelo seu servo Apolodoro). Quando saiu lá de dentro, o romano de 54 anos ficou maravilhado ante o atractivo físico e a graça de uma jovem que só tinha 21 anos. Cleópatra teria então argumentado que teria ficado encantada com as histórias amorosas de César e gostaria de o conhecer, pessoalmente. Tornou-se, assim, a sua amante, o que a ajudou estabelecer o seu poder no país. No entanto, não foi tudo fácil para Cleópatra, pois Júlio César impôs a reconciliação entre os irmãos.

Numa tentativa de solucionar a crise César tentou assegurar que o testamento de Ptolomeu XII fosse respeitado, nomeando Cleópatra e Ptolomeu XIII como co-regentes do Egipto

Mas a tal reconciliação foi algo fictícia, pois o que Ptolomeu XIII queria era  expulsar César de Alexandria. Durante quatro meses os exércitos greco-egípcios e romano  defrontaram se numa uma série de escaramuças, uma das quais finalizou com a queima de toda frota egípcia atracada no porto de Alexandria. O incêndio foi de tal forma que lhe perderam o controlo e este alastrou-se a edificações próximas, entre elas, a famosa Biblioteca de Alexandria, construída por Ptolomeu. Durante uma dessas batalhas, acredita-se que Ptolomeu XIII morreu afogado no rio Nilo. Em 15 de Janeiro do ano 47 a.C. César controla o Egipto derrotando o exército de Ptolomeu XIII.

Morto Ptolomeu XIII, e no estrito cumprimento do testamento depositado em Roma, César entregou o poder a Ptolomeu XIV, que só tinha 6 anos, obrigando Cleópatra, que já era amante do romano, a casar-se com o seu irmão e a formar um novo casal real.

Apesar de César estar  envolvido emocionalmente com Cleópatra, decide voltar a Roma, mas deixa esta  grávida de um filho. A 27 de Junho de 47 a. C. Nasce Ptolomeu XV (“Ptolomeu César”), que o povo egípcio carinhosamente lhe chama, pequeno César (“Cesarión”). Embora César tenha reconhecido a paternidade da criança recusou-se contudo a nomeá-lo  seu herdeiro.

No ano seguinte, a convite do seu amante, Cleópatra parte para Roma, com o seu marido e filho Fixando residência nos jardins do Janículo.

Esta viagem, independente de outros valores, revela-nos interesse por conhecer os costumes romanos e inclusive o desejo de uma oriental de se ocidentalizar. Cleópatra permaneceu um ano e meio em Roma.

Terá sido em Roma que Cleópatra elaborou o seu plano de hegemonia para o mediterrâneo. Sabe-se pouco da presença de Cleópatra em Roma, a não ser que a sua presença terá gerado desprezo por parte da População local. César, nunca se importou com o povo, que não gostava da egípcia e construiu uma estátua de ouro em sua honra no templo de Vénus. Porém, o descontentamento era tal, que em 15 de Março de 44 a.C., Júlio César foi assassinado durante uma reunião do Senado romano.

A morte de César, decepou os planos, mais políticos que pessoais de Cleópatra. Não só o assassinato, mas também o conhecimento do testamento de César, em que este tornara seu único herdeiro Octávio, filho de uma sobrinha-neta por parte da sua irmã, fizeram na compreender que a sua vida e a do seu filho corriam perigo, pouco depois da morte de César, Cleópatra decide voltar para o Egipto, esperando o desenrolar de novos acontecimentos.

De volta ao Egipto, ela sabia que não poderia manter a unidade do seu reino contra a invasão dos romanos e que seria necessário uma outra aliança para que não fosse atacada.

Em 42 a.c., Marco António, outro dos triúnviros que governava Roma após o vazio governativo causado pela morte de César, convoca Cleópatra para que esta se apresente em Tarso perante ele a fim de lhe explicar uma suposta ajuda que ela terá prestado a Cássio, um dos assassinos de César e, portanto inimigo dos triúnviros. Astuta Cleópatra viu nesta convocatória uma oportunidade para tentar conquistar, seduzir Marco António.

Cleópatra chegou a Tarso com grande pompa e circunstância,  contam que para conquistá-lo, preparou uma grande festa em sua honra, onde não faltaram presentes, belas mulheres e onde se utilizou de todos os seus encantos para tentar seduzi-lo. O que encantou Marco António, que não lhe conseguiu resistir, passando com ela o inverno de 42 a.c. a 41 a.c. em festa permanente; tendo a rainha ficado grávida de gémeos, mas o Romano não conseguiu velos nascer, gémeos que se chamariam Cleópatra Selene, e Alexandre Hélio. Pois no começo do ano 40 a.c., este teve que regressar a Roma, porque Fúlvia, a sua mulher, participava numa conspiração contra Octávio. No entanto no final desse ano a sua mulher morre e Marco António firma um acordo de paz com Octávio e em sinal de amizade, casa-se com a irmã deste, Octávia.

Cerca de 4 anos mais tarde, por volta de 37 a.c., Marco António que se encontrava em expedição contra os partos regressa a Alexandria. Reatando assim a sua relação com Cleópatra, e passando a viver nessa cidade. É possível que se tenha casado Com Cleópatra segundo um ritual Egípcio, (numa carta, citada por Suetónio tudo leva a crer que essa hipótese tenha ocorrido), embora nessa altura tivesse casado com Octávia, irmã do triúnviro Octávio. Nesse período Cleópatra da á luz o terceiro filho de ambos, Ptolomeu Filadelfo.

Durante as doações de Alexandria, no final de 34 a.c., a seguir à conquista da Arménia: Cleópatra e Cesarion Foram coroados Co-regentes do Egipto e Chipre; Alexandre Hélio foi coroado governante da Arménia, Média e Partia; Cleopatra Selene foi coroada governante da Cirenaica e Líbia; Ptolomeu Filadelfo tornou-se o governante da Fenícia, Síria e Cilícia. Cleópatra foi coroada igualmente como rainha dos reis.

Marco António e Cleópatra eram fortes aliados e tinham grandes ambições. Recuperaram alguns territórios que a família da rainha havia controlado no passado. Porém Octávio sabendo da ambição de ambos, informou ao Senado romano que Marco António era um traidor. E que este tinha pedido o divórcio com a sua irmã uma ofensa.

No final do ano 32 a.C., Octávio declarou guerra a Cleópatra e ao Egipto. Marco António actuou na guerra como aliado de Cleópatra contra Roma. Chegaram à Grécia temendo um ataque que os levara a perder esse território. O que realmente aconteceu é que os soldados romanos foram vencendo o exército de Marco António, capturando os seus fortes e afundando os seus barcos.

Pouco a pouco a situação foi piorando, e desesperados, Marco António e Cleópatra decidiram atravessar o cerco romano. Foram derrotados na famosa batalha de Accio (Actium), enquanto Cleópatra conseguiu fugir com a sua frota regressando a Alexandria, onde entrou triunfante como se tivesse conquistado uma grande vitória, para evitar que os seus inimigos no Egipto não a deixassem entrar ao saberem que havia sido vencida por Octávio.

Marco António estava desiludido com a desonra e decidiu ocultar-se na ilha de Faros, sem querer ver ninguém. Enquanto isso, Cleópatra seguia pensando na forma de continuar o seu governo. Octávio já não tinha ouro suficiente para pagar os exércitos, por isso não poderia atacar tão cedo. Porém sabia se que ele voltaria em busca das riquezas do Egipto.

Passado algum tempo, Marco António saiu de seu retiro e unindo-se a Cleópatra de novo voltaram a realizar festas no palácio.

Um ano depois, receberam a notícia da chegada de Octávio, e Cleópatra temendo a sua reacção, enviou-lhe uma carta oferecendo-lhe o Egipto com a condição de que os seus filhos governassem. Porém Octávio não respondeu, pois o que tinha em mente era governar sozinho.

Marco António reuniu o seu exército para enfrentar Octávio, mas os seus soldados desertaram e culpavam Cleópatra, que assustada com a ira do romano se encerrou num mausoléu. Corriam rumores que a rainha egípcia se teria suicidado. Marco António enlouquecido cravou a sua espada, justamente no momento em que o secretário de Cleópatra chegava com a notícia que ela estava viva. Foi levado então até á rainha e morreu nos seus braços.

Pouco depois, supostamente com a idade de 39 anos, Cleópatra, a última rainha do Egipto suicidou-se da forma já referenciada neste artigo. Morre a grande mulher e nasce o mito.

O MITO DA MULHER DE PODER

Sem sombra de dúvida, Cleópatra jamais foi esta mulher tão hostilizada pela literatura greco-romana. Ela é, antes de tudo, uma personagem que tem despertado o interesse de um grande número de historiadores e o que sabe-se hoje, é que a imagem fornecida pela literatura antiga está impregnada de conceitos equivocados, forçando nos a encarar Cleópatra como uma governante ambiciosa e uma mulher desprovida de sentimentos que utiliza sua sexualidade para alcançar objectivos maiores. Na realidade, esta rainha nem tinha tantos encantos assim, mas utilizava se de um cérebro perspicaz, que ambicionava o poder.

A superioridade do Ocidente perante o Oriente, somada à oposição do masculino pelo feminino foi os elementos que desencadearam a luta entre Cleópatra e o romano Octávio.

Graças a recentes publicações, foi nos possível conhecer um pouco mais da Rainha Cleópatra. É hoje, do nosso conhecimento, o seu paralelo papel de mãe, sempre preocupada com o futuro dos seus filhos. Alguns episódios da vida desta mulher permite nos contemplar uma rainha que reflectia e calculava profundamente todas as suas decisões, tendo sempre em conta os interesses do seu reino e dos seus filhos. A opção pelo suicídio é a prova cabal destes factos.

Cleópatra lutou até o fim para preservar a independência do Egipto e equivocou se ao pensar que poderia derrotar Roma. A sua enorme popularidade não só no Egipto revela que efectivamente ela teria sido uma extraordinária mulher e uma rainha regente muito competente. A sua memória foi honrada através dos séculos pelos egípcios, porque eles sempre entenderam as atitudes e comportamentos desta mulher que antes de tudo, queria reinar num Estado livre, sem a presença romana.

A 26 de Maio de 2008, a imprensa internacional noticiou, ter sido encontrada a cabeça de uma estátua em a balastro representativa de Cleópatra, perto de Alexandria, no litoral mediterrâneo do Egipto. No templo de Tiposiris Magna.

Em Abril de 2009 o arqueólogo egípcio Zahi Hawass afirmou ter descoberto a sepultura de Cleópatra no Templo mencionado no parágrafo acima.

A história de Cleópatra tem servido de inspiração a muitos artistas ao longo do tempo.

Na pintura, a morte de Cleópatra foi fonte de inspiração de inúmeros pintores, entre os quais se destacam Reginald Arthur, Augustin Hirschvogel, Guido Cagnacci, Johaan Liss, John William waterhouse e Jean André Rixens.

Na Literatura, entre as principais obras inspiradas na vida de Cleópatra encontram-se as peças de teatro de Étienne Jodelle (“Cléopâtre captive”), (“António e Cleópatra”) de William Shakespeare, (“Cleópatra”) de Sá de Miranda, e (“Caesar and Cleopatra”) de George Bernard Shaw, entre muitas outras obras.

No cinema, destacam-se em 1934 um dos primeiros filmes falados a retratar a rainha (“Cleópatra”), de Cecil B. DeMille e protagonizado por Claudette Colbert, mas sem duvida que o filme mais conhecido sobre Cleópatra é a versão de 1963 realizado por Joseph L. Mankiewicz, com Elizabeth Taylor, Rex Harrison, e Richard Burton nos principais papeis.

Texto elaborado e desenvolvido por:

Paulo Coelho. (Sá)

Fonte: Enciclopédia Universal Ilustrada,

Diciopédia 2009,

A Web.

Hypatia de Alexandria (370 – 415 D.C.) “ÀGORA”


Uma das coisas mais tristes do mundo é a intolerância religiosa, pois todas as religiões deveriam estar baseadas no amor e na compaixão. Alguns dos momentos mais negros da humanidade, algumas das guerras mais sangrentas, algumas das torturas mais cruéis existiram exactamente devido à intolerância religiosa. Um desses casos mais vergonhosos de intolerância foi o assassinato de Hipatia de Alexandria.

Uma raridade no mundo antigo Hipátia Nasceu no Egipto no ano 370 D.C., filha de Theon de Alexandria. Muito cedo Hipátia deu provas do seu talento, tornou-se professora e deu aulas de matemática e filosofia na biblioteca de Alexandria, um dos maiores centros de conhecimento do mundo antigo, além de ter viajado para Itália e Atenas para tirar alguns cursos de filosofia.

Era considerada uma discursante muito carismática, as suas aulas eram bastante concorridas. Escreveu comentários a obras clássicas de matemáticos Gregos. Manteve-se solteira e declarava-se “casada com a verdade”. O conjunto da sua obra é tido como de relevo, e a sua morte, ocorrida em 415 D.C., trágica. Foi o último dos grandes nomes intelectuais a trabalhar na famosa biblioteca de Alexandria, por volta do ano 400 D.C. foi nomeada bibliotecária mor (directora) da referida biblioteca, sucedendo ao seu pai Theon de Alexandria, um conceituado filósofo, matemático, e astrónomo, da altura. Foi também a primeira mulher que a história regista como dedicada á matemática.

Hipátia de Alexandria nasceu no ceio de uma família com forte tradição intelectual. O seu pai Theon de Alexandria já referenciado neste documento como um conceituado, filósofo, matemático, e astrónomo, escreveu uma tese em 11 livros sobre o célebre tratado de “Almagesto” de Ptolomeu, que significa “ O grande tratado”, um tratado de astronomia. Esta obra é uma das mais importantes e influentes da antiguidade clássica. Nela está descrito todo o conhecimento astronómico Babilónico e Grego, nela se basearam a astronomia de Árabes, Indianos, e Europeus, até ao aparecimento da teoria heliocêntrica de Copérnico. No Almagesto, Ptolomeu apresenta um sistema cosmológico geocêntrico, isto é a terra está no centro do Universo e os outros corpos celestes, planetas e estrelas, descrevem órbitas em seu redor. Estas órbitas eram relativamente complicadas resultando de um sistema de epiciclos, ou seja Círculos com centro em outros círculos. Theon de Alexandria realizou ainda uma revisão dos “Elementos” de Euclides, de onde são baseadas as edições mais modernas da obra do conhecido matemático Grego.

As famílias fundadas sobre este lastro intelectual e de projecção social de Alexandria da sua época costumavam ainda cultuar o ideal Grego da “Mente sã, corpo são” (“men sana in corpore sano”). Com esse lema no pensamento, o pai de Hipátia não mediu esforços para torna-la o “ser humano ideal”, ensinando-lhe matemática e filosofia, e levando-a a fazer um programa de preparação física para lhe assegurar um corpo saudável. Todo esse esforço foi compensador.

Quando Hipátia começou a ser retratada a partir do renascimento, o seu rosto ganhou belos traços com um perfil nobre e altivo. Esses traços capturaram de uma certa forma uma projecção positiva que é feita da sua vida e obra, e um certo sentimento de reverência com respeito ao seu fim trágico.

No campo da matemática, Hipátia escreveu comentários sobre a “Aritmética” de Diofanto e as “cónicas” de Apolónio, fez investigações sobre a geometria de Euclides, interessou-se pelas ciências aplicadas, inventou um astrolábio e criou, nos ateliês da biblioteca de Alexandria diversos instrumentos de medida, como um nivelador de água, um higrómetro, e um aparelho para destilar água. O quanto se sabe ela interessou-se particularmente pelo estudo dos planos formados pelas intersecções de um cone e pelas curvas decorrentes dessas intersecções, as chamadas intersecções cónicas (hipérboles, parábolas, e elipses). A maior parte da obra escrita por Hipátia perdeu-se no tempo; mas no século XV foi encontrado na biblioteca do Vaticano uma cópia do seu comentário sobre a obra do matemático Grego Diofanto.

Devido á sua ambientação cultural e á influência da educação recebida do pai, é certo que Hipátia conheceu e estudou a obra do astrónomo Ptolomeu. A partir de cartas escritas por Sirénius, um dos seus alunos, sabemos hoje que Hipátia dedicou bastante tempo às suas actividades culturais desenvolvendo instrumentos mecânicos, alguns deles já aqui mencionados, utilizados para cálculos astronómicos e localização de astros no céu.

Na filosofia Hipátia abraçou a causa neoplatónica (ou “Platonismo”) que na sua época em Alexandria actuava em oposição aos grupos cristãos, fervorosos e actuantes. Ao longo do tempo, o cristianismo, por assim dizer, dominou e até mesmo assimilou o que lhe interessava do neoplatonismo, que na época era considerada uma filosofia pagã; isto aconteceu em Alexandria e por todo o mundo Romano.

Disputas religiosas e conflitos entre lideranças de Alexandria, apoiados por correntes religiosas, atraíram a ira dos devotos cristãos contra a “herege” Hipátia. A matemática, e a filosofia eram consideradas a face visível do neoplatonismo na cidade de Alexandria.

Existem várias versões sobre o seu trágico final, todas coerentes entre si, sendo que a mais difundida é a variante registada por Edward Gibbon, no seu livro “O Declínio e a queda do Império Romano”. Nesta versão numa manhã da quaresma de 415 D.C., Hipátia foi atacada na rua, por uma turba de cristãos quando regressava a casa na sua carruagem. A multidão enfurecida arrancou-lhe os cabelos e a roupa, esfolo-a com conchas de ostras, arrancaram-lhe os braços e as pernas, e queimaram-lhe o que sobrou do seu corpo. Atitude de uma verdadeira devoção bárbara.

O impacto dramático da morte de Hipátia fez com que no ano em que ocorreu alguns historiadores o interpretassem como o marco do fim do período antigo da matemática Grega. Para outros este desfecho só ocorrerá cerca de 100 anos mais tarde com a morte de Boécio também de uma forma trágica. Entretanto a morte de Hipátia de um certo ponto de vista sinaliza o fim de Alexandria como fonte do centro de maior conhecimento da matemática Grega da antiguidade.

A vida, a obra e a morte trágica de Hipátia despertaram a atenção de filósofos, matemáticos, e historiadores que a sucederam. Damáscio, um dos seus antigos alunos, que mais tarde se tornou num crítico severo do seu trabalho, escreveu que ela era “por natureza, mais talentosa e refinada do que o seu pai”. Intelectuais desde Voltaire a Carl Sagan, passando por Bertrand Russel dedicaram-lhe comentários de apreço e reconhecimento. A sua vida foi reconstituída num romance de Charles Kingsley, (“Hypátia, or new foes an old face”. New York: E.P. Dutton, 1907), e contada por Maria Dzielsk (“Hypátia of Alexandria”, Trad. F. Lyra, Cambridge, M.A. Harvard Press, 1995).

Recentemente o conhecido Realizador Espanhol de cinema Alejandro Amenabar (“Mar adentro”, 2004) dedicou um filme á vida de Hipátia (“Ágora”), que é representada pela actriz Inglesa Rachel Weisz. No Filme, Ágora exibido no último festival de cinema de Cannes, fora da competição, não são apresentados os detalhes do final trágico de Hipátia de Alexandria descritos por Edward Gibbon. Hipátia de Alexandria é retratada como uma “mulher agnóstica e letrada, destruída por fanáticos Religiosos. Alejandro Amenabar declarou que o seu filme podia ser interpretado como uma espécie de reflexão sobre os fundamentalismos religiosos de todos os tempos.

Para terminar este artigo, deixo aqui uma frase da própria Hipátia que me parece sintomática da grande inteligência desta mulher cuja existência bastaria para provar que seja qual for o ramo das ciências aplicadas, estes não são sexistas.

Defende o teu direito de pensar, porque mesmo pensar de modo erróneo é melhor  do que não pensar. . .

Hipatia de Alexandria 370/415 D.C.

TRABALHO ELABORADO & DESENVOLVIDO POR:

PAULO COELHO. (“SÁ”)