OS ÚLTIMOS MESES DE SALAZAR «Paulo Otero»


OS ÚLTIMOS MESES DE SALAZAR

“Salazar estava prisioneiro dele próprio”

Um homem “frágil”, “idoso” e “doente” mas que continuava a ser a personificação do Estado Novo. Este é um dos retratos de António de Oliveira Salazar meses antes de morrer. O fim da vida do estadista é descrito no livro “Os últimos meses de Salazar”, de Paulo Otero, publicado quando passam 40 anos sobre a sua morte.

Salazar foi “prisioneiro” do regime nos últimos meses de vida

“O livro retrata o período do acidente até à morte de Salazar, enquanto homem e ex-político”, explica o autor da obra, editada no ano em que se assinalam 40 anos da morte do estadista de Santa Comba Dão, que faleceu a 27 de Julho de 1970.
Desde a “célebre” queda da cadeira em 1968, sobre a qual existem duas versões possíveis, à cirurgia ao cérebro, até à agonia final em São Bento, o livro mostra um período “pouco conhecido” da vida do ditador.

“Salazar estava prisioneiro dele próprio”, diz Paulo Otero. “Uma pessoa idosa e frágil, que não manda mas é mandada e que não instrumentaliza mas é instrumentalizada”, completa o autor, que recorreu a diversas fontes para preparar esta investigação bibliográfica.

A instrumentalização do político começa quando Salazar é hospitalizado em Setembro de 1968. A idade avançada do ditador já tinha levantado a questão de um sucessor mas Salazar “nunca tomou a iniciativa de apresentar demissão”, lembra Paulo Otero.

Marcello Caetano é nomeado novo Chefe de Governo por Américo Tomaz depois de Salazar ter sofrido um acidente vascular cerebral, e de ser internado na Casa de Saúde da Cruz Vermelha em Lisboa, com pouca esperança de sobreviver e de retomar o poder.

Salazar vive num “mundo de ilusão”

O político vai passar os últimos meses de vida julgando que ainda era Chefe de Governo, vítima de um “jogo” de interesses políticos, do qual “o presidente da República foi cúmplice”, refere o autor do livro.

Através de uma selecção das notícias que eram lidas a Salazar, do seu regresso a São Bento depois de sair do hospital, das reuniões que tinha com ministros e com Américo Tomaz, foi criado um “mundo de ilusão”, “uma aparência formal de que Salazar ainda tinha o poder”, conta Paulo Otero.

Além dos políticos do Estado Novo, também as pessoas mais íntimas de Salazar, em especial agovernanta Maria de Jesus, tiveram um “papel central na montagem deste cenário irreal”. Paulo Otero acredita que o político “morreu com a convicção” de que ainda era Presidente do Conselho.

Marcello Caetano, recém-chegado ao Governo, esforçou-se para a construção de um retrato público de Salazar “doente e inválido”, para tal contribuiu uma emissão televisiva de um filme “manipulado” que mostrava um homem “velho e caquético”.

O “retrato real de Salazar” aponta para um homem semi-lúcido, que tinha consciência das suas funções, embora muito debilitado fisicamente: “paralisado de todo o lado esquerdo e “parcialmente cego”.

Homem para além do político

Paulo Otero sublinha, contudo, que se Marcello Caetano esforçou-se por começar o processo de “dessalarização”, foi Américo Tomaz “o verdadeiro herdeiro do regime”, que “assegurou o salazarismo sem Salazar”, conclui o autor.

Marcello Caetano tinha “os braços e as pernas amarradas” pelo controlo de Américo Tomaz, sob a imposição de continuar a defender o “ultramar e a manutenção das colónias”, a principal causa para a Revolução de Abril de 1974, recorda Paulo Otero. Além do protagonismo de Américo Tomaz, o livro pretende mostrar que “todo o político também é um ser humano”, diz Paulo Otero, “mesmo aquele que teve em si concentrado todo o poder”, completa o professor de Direito.

Outra “ideia” a ser retirada da investigação é a “relação entre amizade e poder”. “O poder gera amizades e interesses”, explica o autor, referindo que Salazar acabou sozinho e esquecido quando perdeu a capacidade de governar.

Salazar ainda é “referência”

Volvidos 40 anos da morte do ditador, “Salazar ainda é uma referência pela positiva ou negativa”, diz Paulo Otero. “Daqui a alguns anos, se tivermos de escolher o principal político do século XX, diremos que foi Salazar”, acredita o professor de Direito.

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