Spínola, o ‘anti-herói’ da revolução de 25 Abril de1974


General Spínola

Quase 36 anos depois de se tornar o primeiro Presidente da República do período revolucionário, o Marechal António de Spínola continua a ser uma das mais controversas figuras da História nacional. Era um homem do regime marcelista ou antes um herói da revolução de Abril de 74?

Durante anos, Portugal esteve de costas voltadas para a controversa figura do Marechal Spínola: militar destacado no Ultramar, conquistou simpatias durante o Estado Novo, tendo inclusive sido convidado, pelo presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, para ocupar a pasta de Ministro do Ultramar em 1973.

‘Spínola é um homem do regime desde o início’, recorda Luís Nuno Rodrigues. Para o historiador e autor da biografia ‘Spínola’ (agora lançada pela Esfera dos Livros), o Marechal desenvolveu durante o Estado Novo uma relação de proximidade e de identificação com o regime ditatorial.

Quando Marcelo Caetano chega à Presidência do Conselho de Ministros, em 1968, Spínola encarou ‘com esperança’ a sua chegada ao poder, recorda o historiador, já que partilhava com ele a defesa de uma política colonial de índole federalista.

A desilusão com Caetano levaria Spínola a dar uma ‘machadada definitiva’ no marcelismo, com a publicação do livro ‘Portugal e o Futuro’, onde inscreve a sua própria visão daquilo que deveria ser a descolonização portuguesa. ‘Foi uma pedrada no charco’, entende Luís Nuno Rodrigues.

Na primeira linha da revolução

No dia 25 de Abril de 1974, e com o Movimento das Forças Armadas (MFA) na rua, o Marechal Spínola acaba por se assumir como o rosto forte dos militares, pela própria ‘dinâmica dos acontecimentos’: ‘Marcelo Caetano entra em contacto directo com o General Spínola e pede a Spínola que se dirija ao Largo do Carmo, para lhe apresentar a sua rendição’, recorda Luís Nuno Rodrigues.



Mas, ainda que se considerasse representante dos militares, as diferenças ideológicas eram, em boa parte dos casos, intransponíveis: ‘a relação entre Spínola e o MFA é uma relação de conflito desde o primeiro dia’, em matérias como a descolonização. Em última análise, são essas divergências que o levariam a demitir-se da Presidência da República, em ruptura com o projecto político defendido pelos militares.

Crítico da do rumo esquerdista que Portugal tomou no período pós-revolucionário, acaba por envolver-se na tentativa de golpe de Estado de 11 de Março de 1975, com o objectivo de retomar o poder. O golpe falha e revela-se ‘uma tragédia na vida pessoal de António de Spínola’: parte para o exílio, onde conspira para evitar a total aplicação do programa do MFA.

Reconciliação com Portugal

Depois da passagem pelo exílio, a reconciliação com os portugueses não se revela fácil: ‘Spínola regressa a Portugal em 1976 e é preso ainda no aeroporto, embora saia em liberdade passados alguns dias. Mas, lentamente, a democracia viria a reintegrar a figura do General’.

Para essa reconciliação, contribuíram os ex-presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. Só em 1987, por exemplo, é que Soares reconhece publicamente a importância de Spínola na consolidação do novo regime democrático, mas ainda hoje a imagem do Marechal (sempre associada ao monóculo no rosto e ao pingalim na mão) continua a gerar aceso debate.

‘Spínola’, o livro agora publicado por Luís Nuno Rodrigues, vem ajudar a superar sentimentos passados. Para o historiador, só a passagem do tempo permitiu um outro olhar sobre o ex-presidente: ‘a pouco e pouco, estamos a passar da memória à História, e portanto hoje já é possível ter uma visão mais distanciada e imparcial dos acontecimentos e figuras desse período’.

    • Hpólito Nunes
    • 4 de Abril, 2011

    Todas as figuras imnportantes para a história têm as suas contradições… É verdade que Spínola deu a machadada final no regime fascista com a publicação do seu livro. Mas o que muita gente se esquece é que ele participou como voluntário na criminosa Operação Barbarossa de Hitler que visava a subjugação da União Soviética.
    Spínola era quem estava na presidência da república quando foram libertados os presos políticos, e puxou os cordelinhos na esperança de que o povo se esquecesse desse ponto fundamental do programa do MFA. Segundo me foi contado por familiares meus que viveram esses tempos, os presos políticos acabaram por ser libertados apenas porque um montão de pessoas se concentraram à porta das prisões à hora prometida e fizeram pressão para que a libertação fosse feita.
    No contexto em que apareceu, o 11 de Março conta-se apenas como mais uma tirada reaccionária do personagem… Num contexto de levantamento revolucionário popular aberto, em que o poder políticos provisório foi obrigado a fazer inéditas concesoes às massas trabalhadoras sublevadas (nacionalizações, SMN, leis laborais, direitos das mulheres), o que é que queremos que o país fique a pensar de um homem que participa num golpe militar conservador? Não há distanciamento que esconda esta análise.

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